sábado, 7 de março de 2009

CAPÍTULO 7: UM MUNDO ÀS ESCONDIDAS

Repleto de misticismo, cada rua do bairro Jardim Itatinga revela diferentes histórias de vida, duras realidades, desencantos e noites mal dormidas. Os olhares de cada uma das moradoras refletem uma vida sofrida, cheia de amarguras, decepções, busca por mudanças ou recompensas pela vida que levam. Mas ao mesmo tempo exibem beleza, sensualidade, simpatia e, mais que tudo, uma intensa sexualidade.

Tanto as pessoas que nele residem, como o bairro em si, formam um mundo à parte. Nenhuma das mulheres que moram no bairro pretende ficar para sempre nas condições em que vivem. Sonham em melhorar de vida e buscar novos horizontes.

Mas nem sempre sair é tão fácil como chegar. Por isso continuam ali e, quando saem, acabam procurando outro local, para mais uma vez, vender seus corpos. Admitem ainda que as marcas da vida noturna estarão sempre na lembrança daquelas que por lá passarem.

O Jardim Itatinga, na atualidade, reflete a má distribuição de renda e todos os problemas enfrentados pela população carente das médias e grandes cidades brasileiras, como o caso de Campinas, que atualmente suporta mais de um milhão de habitantes, segundo o censo demográfico realizado pela Prefeitura da cidade.

Ponto de referência para viajantes, por estar localizado às margens da rodovia Santos Dumont, que interliga o eixo Anhangüera-Bandeirantes aos municípios de Indaiatuba, Salto, Itu e Sorocaba e, principalmente, a São Paulo, o Itatinga é uma atração.

Todos que transitam pela rodovia debruçam-se às janelas dos veículos para observar o famoso e lendário Jardim Itatinga e suas tão comentadas moradoras. A curiosidade sobre o bairro das putas não é somente masculina. Muitas mulheres, quando surge uma oportunidade, passam por suas ruas para observar as casas e o comportamento de mulheres e de clientes.

Segundo dados do Centro de Saúde Jardim Itatinga, o bairro possui em média 2000 prostitutas, sejam moradoras ou freqüentadoras constantes. O número não corresponde à quantidade exata de meninas nas casas, devido à rotatividade e às possibilidades de algumas não utilizarem os serviços do posto local.

O bairro conta com média de 200 casas de prostituição, de pequeno, médio e grande portes. Mas a decadência faz com que as mais famosas delas estejam freqüentemente vazias, com horário de funcionamento reduzido e com um número baixo de meninas em relação ao período de glamour. Hoje, a Galo de Ouro, uma das mais famosas boates de Campinas, não consegue manter mais que sete mulheres, número insignificante para uma casa que já chegou a contar com oitenta em uma única noite.

A maioria das mulheres opta por casas de médio e pequeno porte. Segundo elas, o número de programas por noite é bem maior do que nas grandes casas, o que compensa os valores mais baixos cobrados por cada programa. Claudia, proprietária de uma casa de pequeno porte, onde também se prostitui, relata que o segredo para um bom movimento não está no tamanho da casa, mas sim na simpatia e beleza das meninas.

A quantidade de ruas de prostituição continua a mesma. Segundo Dinah, o que muito decaiu foi a quantidade de mulheres. "Hoje não tem nem a metade do que tinha antes", argumenta ela.
Diferente do que se observava no período em que foi formado, o bairro já não é mais conhecido pelo glamour das casas refinadas e dos freqüentadores ilustres. Durante o dia, as mulheres permanecem em frente às casas, o movimento e trânsito de carros designam uma típica zona de prostituição.

É comum encontrar pelas ruas vendedores autônomos com as mais variadas mercadorias. O comércio informal é abrangente e vende desde lingerie até condimentos culinários.
As prostitutas vêem no Itatinga, um refúgio onde podem exercer, longe dos olhos de familiares e das reprovações sociais, aquilo que muitas definem como profissão: a prostituição.

Além delas, lá vivem também muitos travestis e homossexuais. Cristiane, 30 anos, ‘sapatão’ como prefere ser chamada, sente-se livre para andar pelo bairro sem medo da discriminação. Moradora do bairro há sete anos, já conseguiu o apoio da família em relação a sua escolha. "No começo não foi muito fácil eles me aceitarem aqui, mas depois eles viram que aqui a gente pode ter mais liberdade. Aqui é um mundinho da gente, por isso que a maioria vem, travestis, 'sapatão', prostitutas. Porque aqui a gente fica a vontade, a gente faz o que quer", argumenta Cristiane.

Jardim Telesp, Parque São Paulo e Jardim Maria Rosa são bairros formados nas proximidades do Jardim Itatinga. O número de moradores nessa região vem aumentando gradativamente por uma população de baixa renda.

A infraestrutura do bairro também nada se diferencia dos demais. Há recursos básicos, ainda que deficientes, em todos os serviços públicos. Coleta de lixo, água, luz, telefone e ruas asfaltadas. O bairro ainda conta com um posto de saúde, um centro de atendimento às mulheres marginalizadas e uma creche.

Izalene Tiene, atual prefeita da cidade de Campinas, informou que também houve um investimento recente para a manutenção geral do bairro, com operação tapa-buraco, na limpeza do bairro e no cuidado com os equipamentos públicos instalados no local.

Os moradores contam com toda a frota de ônibus que transita na rodovia Santos Dumont e com todas as linhas que atendem aos bairros mais distantes, como os Dic´s e Ouro Verde, que chegam a passar pela rua Eldorado, paralela à Santos Dumont, a qual já faz parte do bairro.
Nessa mesma rua, a creche Bento Quirino - Unidade II, atende a 110 crianças, moradoras do bairro e da região, com idades entre dois e onze anos. Essa organização não-governamental mantida pela Sociedade Feminina de Assistência à Infância, objetiva oferecer às crianças o apoio social garantido através do Instituto da criança e do adolescente.

7.1 Política da boa vizinhança

Os moradores do Jardim Itatinga não conseguem abster-se do estigma imputado pelo bairro. Atraídas pela especulação imobiliária, as famílias não representam mais do que 20% da população local. E, curiosamente, a maioria dessas residências familiares tem alguma ligação com a prostituição, entre eles, arrendatários e pessoas que exercem alguma função nas casas e que indiretamente sobrevivem da zona.

As casas de família são facilmente percebidas no bairro. Muros altos e com uma, já tradicional, placa indicando ser residência familiar. Além disso, as moradoras preservam a discrição ao sair na rua. A convivência é inevitável, mas ainda há uma tentativa de distância das prostitutas.
Por outro lado, muitas prostitutas criam seus filhos no bairro e, sem nenhuma indignação, os fazem presenciar aquela realidade. A dona de casa Maria Margarida afirma já ter visto crianças na esquina de sua casa e não se conforma com essa triste convivência. Rostinhos inocentes se misturando aos olhares e gestos insinuantes das mulheres "Um dia, havia uma menina sentada na calçada brincando com uma boneca. Homens paravam para mexer com ela. Eu não tinha telefone, senão chamaria a polícia", lamenta.

A moradora defende um novo confinamento, a designação de outra área, mais afastada, para abrigar a prostituição em Campinas. "Se elas saíssem daqui, ia valorizar muito minha casa. Eu acho que poderiam ser prostitutas, mas em um outro lugar, tipo de uma chácara, em uma ilha, sei lá", afirma.

Pais que possuem residências familiares procuram manter a família o mais afastada possível das casas de prostituição. Aurino da Silva, morador há 31 anos do bairro, motorista do sistema de transporte alternativo de Campinas e proprietário de casas arrendadas, convive com a esposa e dois filhos no bairro. Ele criou uma saída alternativa de sua casa na rua oposta, a qual não pertence à malha do bairro. Dessa forma, seus filhos, de cinco e sete anos, não cruzam o mesmo espaço das prostitutas.

"Estou fazendo acompanhamento psicológico com meus filhos para me preparar para educá-los. Sinto-me seguro aqui, não trocaria o Itatinga por nenhuma casa em bairro elegante como o Cambuí. Aqui é seguro porque tem sempre policiais transitando", afirma Aurino.
Com todos esses contrastes, o Jardim Itatinga sobrevive e ainda mantém um certo encantamento que atrai mulheres de regiões distantes, cheias de esperanças, sonhos, expectativas de encontrar no famoso local, espaço e sobrevivência.


7. 2 Mulheres da Vida

É fácil reconhecer entre as moradoras, meninas com descendência mineira, baiana, paranaense, cearense, entre outras. A temporada em cada localidade também é bastante remota, o que faz do Jardim Itatinga um bairro de muita rotatividade e variedade de meninas. A maioria delas não fica mais de um ano no mesmo local.

Há mulheres de todas as idades, casadas, solteiras, viúvas, com ou sem filhos. Não há restrições quanto à cor ou raça, são as ‘meninas do Brasil’ que procuram através da venda de seus corpos, conquistar espaço na sociedade de maneira a se sentir parte dela.
A baixa formação escolar, o desemprego, a desestruturação familiar e dificuldades financeiras, contribuem para que elas tentem, de uma maneira mais acessível à sua realidade - mas não mais fácil - conquistar seus objetivos.

O capitalismo e o modismo estimulam a necessidade de conseguir dinheiro. A ilusória facilidade oferecida pela prostituição acalenta outras maneiras de conduzir a esse sucesso. A busca rápida e desprovida de valores incentiva esse mundo de agitação, mas também de incertezas sobre o futuro, um mundo às escondidas.

O bairro conta com o Centro de Saúde Jardim Itatinga, mantido pela Prefeitura e que vem colaborando com a saúde e prevenção das moradoras. Mais do que o atendimento médico, a enfermeira Reonilda Moreira, afirma que as mulheres procuram pelo centro para desabafar as tristezas e maus tratos sofridos por clientes, pela família, namorados, enfim, por todos aqueles que continuam colocando-as na posição de excluídas.

Um dos maiores problemas na região é a incidência de casos de AIDS em relação aos demais bairros de Campinas, o que colaborou para que fosse estigmatizado pela sociedade, provocando ainda mais o preconceito em relação àqueles que residem nas proximidades.

Segundo o enfermeiro Glauco Ceranto, Coordenador da Unidade, a área de abrangência do Centro de Saúde atende, aproximadamente, 6000 pessoas, sendo que quase 3000 são prostitutas. As pessoas atendidas pelo centro são, em sua maioria, dependentes do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Outro problema encontrado pela unidade, segundo o coordenador, é o excesso de usuários de drogas, seguido pelo homossexualismo masculino, feminino e, principalmente, a prostituição feminina, o maior agravante da região.

Reonilda acrescenta que, apesar dos recursos cedidos pela Prefeitura, o Centro de Saúde é deficiente em diversos setores. "Há semanas que nosso estoque de camisinhas encontra-se defasado, não temos nenhum médico aqui. Ontem foi o último dia do médico que vinha à unidade. O medo da violência e a falta de estrutura para lidar com os casos que chegam aqui fazem com que nenhum médico fique durante muito tempo", lamenta.

Segundo ela, faltam equipamentos, salas adequadas para o atendimento e estrutura para realizar, na própria unidade, exames mais específicos e de maior urgência que chegam até o local.
Uma das principais iniciativas do Centro de Saúde é o Projeto Condom que prevê, na região, a presença de uma população vulnerável às doenças sexualmente transmissíveis e entrega 30 preservativos por semana. O programa dá preferência ao atendimento às prostitutas, realizando exames preventivos a cada seis meses e visitando as residências das mulheres para instruí-las e atender às demais necessidades.

Apesar das limitações relatadas, há uma maior conscientização por parte das prostitutas, sobre os problemas que podem acarretar caso não haja a prevenção de doenças.
Ainda são registrados casos de mulheres grávidas de clientes ou namorados, de aborto e de doenças sexualmente transmissíveis, entretanto, segundo a Secretaria do Planejamento da Prefeitura de Campinas, o número de casos vem diminuindo nos últimos anos de forma significativa.

Muitos clientes ainda oferecem mais dinheiro às meninas que aceitarem ‘fazer programa’ sem o uso do preservativo. Outro fator de risco é o início de um relacionamento fora da prostituição, quando elas acreditam não precisar se prevenir com o namorado.

A proprietária Cláudia, aconselha as meninas a continuar usando o preservativo, mesmo com o parceiro fora da prostituição, e vê nesses relacionamentos um obstáculo para o bom andamento da casa. "O grande problema é quando as meninas se apaixonam, elas acabam cedendo e fazem sexo sem camisinha, é aí que mora o perigo de contrair uma doença. Eu que fiz curso de enfermagem e sei bem os riscos, procuro orientar as meninas que trabalham na minha casa"
Os travestis, também preocupados com a saúde, dizem se prevenir. Miuxa, dono de uma casa onde a maioria é travesti, diz manter controle sobre os exames realizados por todas as pessoas que residem em sua casa e afirma que eles já estão conscientes, embora não possa responder pelo que acontece dentro do quarto.

Além das doenças, a equipe de saúde procura encaminhar casos que fogem às possibilidades de atendimento local, para centros especializados. Exemplos dessa iniciativa são os casos de violência contra mulheres, cometidos por clientes. Esses encaminhamentos são feitos com discrição e cabe às mulheres a decisão de procurar auxílio em delegacias.
Reonilda afirma que não há como estimar os casos de violência contra a mulher. A maioria deles é relatado em confidências pessoais à enfermeira e as denúncias não saem do consultório médico. O medo, segundo ela, é o principal motivo do sigilo das vítimas.

7.3 Mãe de família e mulher da zona


Essa é história de Wanda, 27 anos e prostituta há três. Originária de família humilde, saiu de Belém do Pará e chegou a Campinas convidada pela sua irmã, que já trabalhava no Jardim Itatinga. Sem ao menos saber o que era uma zona de prostituição, Wanda veio em busca de melhor condição de vida.

Grávida, ela ficou sem trabalhar durante a gestação e, quando se viu sem meios para sustentar a filha, começou a se prostituir. Wanda vive no Itatinga. Possui uma casa em uma favela da periferia, onde divide o pequeno espaço com sua filha e um travesti, que também trabalha na zona.

Sem expectativas de melhor condição fora do Itatinga, não espera deixar a prostituição a curto prazo, pois é dela que vem o seu sustento. Divide-se entre casas no Itatinga e a prostituição nas ruas do centro. Fatura por programa cerca de trinta reais e faz, em média, seis programas por dia.

Recentemente envolveu-se com um cliente que conhecera no bairro. Ele se separou da esposa para que pudessem viver o relacionamento. Ele sonhava em tirá-la da prostituição e dar a ela uma vida melhor. No entanto, Wanda não via possibilidade de conseguir um emprego – tão bem remunerado quanto a prostituição – e já não imaginava um relacionamento que viesse lhe tirar sua independência financeira.

Decidiu-se, mesmo assim, acatar o ciúme de seu namorado e foi em busca de uma oportunidade de trabalho. Sem sucesso, optou por continuar na prostituição e a relação se tornou insustentável. Wanda está sozinha.

A cada carro que pára em frente à casa, ela sente a angústia e a incerteza de se envolver com homens sem saber quem são. Teme não saber o que querem. Teme, ainda, não voltar para cuidar da filha.

A caminho de casa, observa o olhar descriminado dos vizinhos que especulam sua origem. Acostumada, segue para seu refúgio, a casa com ares de lar, sem nada que remeta à sua vida na zona. A filha vai, aos poucos, situando-se no contexto da prostituição. Sem ter com quem deixá-la, Wanda a leva para o Itatinga.

7.4 Faces Ocultas

A maioria dos freqüentadores é assalariado, caminhoneiros e "boys" - forma em que as próprias mulheres definem jovens que passam pelas ruas do bairro em fins de semana, apenas para observar o movimento e as mulheres. São homens de todas as idades transitando pela região.
A mudança do perfil dos freqüentadores é explicada pelas mais variadas formas de prostituição presentes na cidade, e também pelo medo. O receio de serem vistos na zona e com os números de casos de violência registrados em jornais, intimida esse tipo de cliente.

No entanto, esse público não fica sem opções na cidade. O processo reversivo ao confinamento revela novas e mais discretas maneiras de encontrar prostitutas. Muitas boates exibem outdoors pela cidade com propaganda sobre shows de stripers em casas refinadas. Casas de massagens e anúncios em jornais, são maneiras de encontrar belas acompanhantes sem se expor em um bairro de prostituição.

Os clientes são a parte mais anônima e fechada da prostituição. Enquanto as prostitutas e travestis se expõem em frente às casas e nas ruas, a maioria dos clientes se protege no interior dos carros. Passam em baixa velocidade, olham, sondam as opções à disposição, continuam a rondar, até que decidam se aproximar do alvo em vista e negociar um programa.

A maioria se nega a falar e acelera quando é solicitada a parar para uma entrevista. São criaturas que têm rosto, mas não têm voz. São vistos, mas preferem não falar. O que se sabe sobre eles é dito pelas prostitutas e travestis, que seguem em comum um código de ética: não revelam nomes.

As prostitutas e travestis são procurados por homens solteiros e casados. Muitos têm clientes fixos, com horário e dia marcados para os programas. Alguns ainda revelam histórias interessantes de casais que procuram pelas meninas para realizarem sonhos eróticos do marido ou da esposa.
Homens solitários e com problemas familiares estão entre os clientes mais rotineiros, principalmente aqueles que fazem programas fixos, ou seja, sempre com a mesma menina, criando uma relação de proximidade e confidência.
A maior incidência de visitas ao bairro acontece após o horário comercial. Os freqüentadores passam para tomar uma cerveja e observar o movimento, o que não os impede de também procurar as garotas para um programa. Para as meninas, as sextas-feiras são os melhores dias para ‘fazer programas’, principalmente em época de verão e em dias que recebem pagamentos nas empresas, especialmente por volta do dia 20 de cada mês, período em que são pagos os vales.

Com roupas curtas e muitas vezes sem elas, as meninas ficam em frente às casas no aguardo de que algum dos carros que ali transitam as convide a se aproximar.
Sob o olhar atento dos clientes, as meninas são como mercadorias observadas, avaliadas e até tocadas por aqueles que pretendem comprá-las. Sempre demonstrando sorrisos e simpatia, debruçam-se nas portas dos carros e trocam palavras, às vezes curtas, outras prolongadas, que parecem incentivar os clientes a pagar pelo programa.

A diferenciação das prostitutas é, por elas definida como completa e não-completa. A primeira aceita desde o beijo na boca até o sexo anal. Já a segunda, é aquela que se limita ao programa ‘papai-mamãe’, ou seja, o sexo vaginal.

Cada detalhe do programa é negociado, o que pode acrescentar ou reduzir o valor cobrado. O cliente, antes de entrar no quarto ou conduzir a menina até o local de sua escolha, já é ciente de quais os limites da companheira na cama, o que lhe impossibilita de pedir algo que ela não aceite fazer.

7.4 Contradições Sociais

A criação da pílula anticoncepcional na década de 50, que antecedeu o confinamento, contribuiu para a evolução do comportamento sexual da sociedade, com uma geração que trazia uma proposta libertária e dissociou o sexo da maternidade. Antes impensável sem o consentimento de uma união civil e religiosa, o sexo foi, em partes, se despindo de preconceitos e passou a ser consumado sem o menor receio do risco de uma gravidez indesejada, como explica a psicóloga-social, Carolina Zaparoli, em entrevista.

A pílula marcou essa mudança por pertencer apenas à mulher a decisão de usá-la. Esse acontecimento significou uma grande mudança no comportamento daquela geração e foi nesse mesmo período que a educação machista atingiu grandes proporções. Os pais começaram a levar seus filhos, de idades entre 14 e 15 anos, para a iniciação sexual com prostitutas.

As mulheres descobriram um sexo por prazer. A conscientização das prostitutas veio em seguida. Elas passaram a se ver como parte da sociedade e, por esse motivo, passíveis de respeito. Segundo a psicóloga, no século XXI haveria uma rebelião, caso surgisse uma tentativa de tirá-las do espaço conquistado.

A Igreja, por sua vez, vem mudando suas concepções sobre o assunto. Não apóia o confinamento de prostitutas em áreas isoladas da sociedade e procura, ao contrário disso, acolhê-las em um Centro Comunitário de Apoio à Mulher Marginalizada, o Cepromm, instituição fundada em 1976 no Jardim Itatinga, coordenada inicialmente pelo padre Haroldo Rahn.

A criação do centro embasou-se na tentativa de realizar trabalhos sociais de resgate da cidadania da mulher marginalizada e reinserção na sociedade. O Padre José Antonio Trasferetti, um dos precursores dos trabalhos realizados com prostitutas e travestis no bairro Jardim Itatinga, justifica uma possível colaboração da Igreja Católica como uma prática isolada. "Às vezes, algumas práticas eclesiais e pastorais conservadoras têm feito um discurso mais radical com relação a isso, até, colaborando com o confinamento e discriminação das prostitutas, mas isso não significa uma postura da Igreja como o todo"

Padre Trasferetti argumenta que se espelha nos ensinamentos da Bíblia para explicar a sua atitude de acolhimento às prostitutas, o que, segundo ele, não é uma aprovação à prática da venda do corpo, mas sim uma atitude de acolhimento às prostituídas."A Igreja não aprova a prática sexual enquanto mercado e perversão, ela entende que a sexualidade deve ser vivida dentro do contexto do matrimônio como expressão do amor".

Para o padre, a prostituição está diretamente ligada ao capitalismo brasileiro, que incentiva uma dupla moral. Ou seja, a sociedade tolera e até incentiva, através de produções mercantilistas e do próprio comportamento de homens que procuram viver sua sexualidade dessa maneira.
Mesmo não aprovando a prostituição, o padre aceita a presença de prostitutas em sua paróquia, porém, deixa claro que essa forma de vida não é correta, de acordo com os ensinamentos da igreja . Por esse motivo, acredita ser necessário um trabalho de conscientização, buscando alternativas para a mudança da realidade dessas pessoas.

Quanto às atitudes sociais em relação à presença de prostitutas na Igreja, alega que as reações são variadas. Alguns discriminam, outros acolhem, ou seja, são comportamentos oriundos de teologias diversificadas.

Existem, para ele, diferenças de comportamento de padres, pastores, leigos e de religiões. O mais importante é salientar que as prostitutas são discriminadas por todas as demais instituições, por isso, a Igreja não pode ser julgada pelo comportamento de alguns fiéis. "O ser humano em geral, é hipócrita, ao mesmo tempo em que condena, também se utiliza da prostituição. Trata-se da dupla moral que vem nos acompanhando há milênios. Por isso é importante ressaltar a figura de Jesus que amou, acolheu e perdoou todas as pessoas", ressalta o padre.

Travestis, habitualmente mais discriminados que as prostitutas pela sociedade, são os que encontram maior dificuldades de integração ou participação de atividades religiosas.
Denise, um travesti muito conhecido no bairro pelas suas iniciativas de acolhimento às prostitutas e travestis, quando desabrigados, com problemas de saúde ou simplesmente precisando conversar, participa de grupos de apoio às mulheres excluídas e por isso conquistou o respeito de muitas pessoas, inclusive por membros da Igreja Católica, o que antes não era possível imaginar, nem mesmo por ela.

Denise se orgulha em afirmar ser o único travesti militante da Igreja Católica em Campinas. Segue os princípios da Bíblia: dar direitos iguais a todos. Por esse motivo, já brigou muito com membros da igreja para assegurar seu espaço. "Eu fico com medo de que alguém crie uma nova religião que não seja baseada nos valores que a gente tem, cristãos. De criar novas igrejas, novas doutrinas. Seria importante que as religiões que já existem incorporassem os direitos iguais que todos nós temos e não os homens criassem uma nova religião" .

Alguns padres ficavam apreensivos em dar a hóstia no momento da comunhão, outros, simplesmente negavam. "Mas eu me impus, eu fui lá, porque eu faço questão dessa vida em comunidade, sou católica, praticante, eu vou à missa, tenho toda uma vida voltada para a questão da comunidade. Participo de cursos bíblicos, retiros, da vida da minha comunidade, da vida de minha paróquia" Além da Igreja Católica, outras religiões estão buscando o acolhimento das prostitutas.
Adaílton de Souza, pastor da Igreja Universal, afirma realizar visitas semanais ao bairro e, ainda, realiza, junto ao grupo de jovens, encontros na própria Igreja, com o objetivo de receber prostitutas e, desta forma, dar a elas a oportunidade de voltar ao convívio social.
Algumas pessoas continuam a alimentar visões machistas e conservadoras sobre as origens do confinamento e da prostituição. Procópio, proprietário do antigo Bar da Zona, afirma: "A prostituição é um ‘mal necessário’ que, apesar de menos procurada, ainda é uma maneira de evitar que moças de família sofram agressões sexuais em decorrência do instinto masculino que não controla seus desejos sexuais. A forma como as moças se vestem, atualmente, também provoca esse instinto incontrolável masculino." Para ele, se não houvesse prostitutas, haveria muito mais casos de estupros na cidade de Campinas.

Como definir um bairro que sobrevive da prostituição e todos, ou quase todos, sobrevivem disso. Donos de casas, arrendatários, prostitutas, cozinheiros, cabeleireiros, jardineiros e faxineiros. O comércio do sexo viabiliza várias profissões e cria no bairro uma nova sociedade, não tão isolada, mas de alguma forma diferenciada dos demais locais da cidade.
Esse é o Jardim Itatinga, repleto de mistérios, lendas e personagens que fizeram a sua existência marcante numa área isolada para prostitutas. Lá todos construíram, e ainda constroem, a sua história, seja ela de glamour, de destaque ou de lágrimas. Está desvendada a história do bairro mais famoso, não só de Campinas, mas de São Paulo, do Brasil, e quem sabe alguém já o tenha comentado em terras mais distantes.

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